Em
tempos de doenças, pandemias, crises, guerras, provocadas pelo capital
financeiro mundial e monopolista, provocadas pela natureza, somos seres na
natureza e seres sociais que vivemos dela o Pensamento Angoleiro vem abrir os caminhos com o ancestral da
Capoeira Angola Comunidade, o seu fundador Mestre Naldinho, que antes de Mestre
foi filho de Jundiá e que aprendia naquele momento, com seu SuSu, na roça do
seu pai, a ciência Cabocla da natureza, o conhecimento do Alho machucado, das
plantas para banho e diversas outras finalidades. Quem vê assim pensa – para que dependermos da indústria
farmacêutica e dos produtos industriais se tínhamos tudo na natureza e bem ao
nosso alcance? Percebemos que tudo isso nos foi tirado e que agora volta
sob outras nomenclaturas, como Medicina
alternativa, PANCS (Planas Alimentares Não Convencionais), mas que estavam
aí, de forma acessível para que os indígenas usassem, como ainda usam, e para os Caboclos, aqueles que já estavam inseridos
nos meios urbanos em desenvolvimento, como no caso do Bairro dos Novais, onde fica a Casa
da Capoeira Angola Comunidade e onde fica um grande núcleo de cultura
popular, que é este bairro. Sendo assim o Mestre faz um pequeno resgate da sua
vida passada de mais de cinquenta anos existindo e explica a sua relação com as
Plantas.
*
Eu
gostaria de começar a minha reflexão lembrando de alguns anos atrás, mesmo
porque eu não sou tão antigo, eu tenho pouco mais de meio século e recordo de
algumas coisas referentes a utilização do que hoje se chama medicina alternativa ou homeopatia... Eu não sei, cada um tem um
nome, mas eu aprendi muita coisa com as benzedeiras: Valei-me nosso senhor Jesus Cristo! Era assim que se falava quando
se chegava na porta da benzedeira - Para
sempre seja louvado! Era assim que ela respondia e a gente podia entrar
para curar Dor de dente, Dor de
espinhela, Espinhela caída, Dor nos quartos, Dor de cabeça, qualquer que
fosse sua enfermidade, a benzedeira com seus ramos de Peão Roxo, com seus ramos
de Arruda passavam por cima das nossas cabeças e fazia suas rezas, a ligação
com o religioso, a fé das rezas com as plantas, então isso foi uma das coisas
que muito marcou a minha infância.
Dá licença senhor das
matas, dá licença senhora! Era assim que seu SuSu, um
trabalhador do meu pai no roçado fazia junto com a gente antes de entrar nas
matas, ele sempre dizia – Peça Licença!
Ofereça algo pras matas! E a gente sempre levava com ele pedaço de fumo de
rolo pra pedir licença e entrar nas matas, era onde ele ia ensinar que madeira
era aquela, que mato era aquele, que raiz era aquela pra utilizar para fazer os
chás, para fazer os banhos, isso tudo desde criança tá dentro das nossas vidas.
Imagina
uma criança com seis, sete anos de idade e o dente criou Remo, ninguém sabia o
que era isso, mas era uma dor de dente e que criava um saco de pus no pé do
dente, aí você ia tratar com alho, amassava o alho e botava no pezinho do dente
pra estourar aquela bolsa de pus e tava bom; então o Alho na minha vida é
milagroso desde que eu era criança. Então você leva uma mordida de cachorro,
amassava o Alho, botava em cima do ferimento, então seu SuSu (o trabalhador de
papai lá no roçado), um negro pequenininho muito conhecedor das coisas das
matas, ele ensinava que Alho era bom pra tudo, era bom pra afinar o sangue, era
bom pra curar de picada de cobra, era bom pra oferecer pros donos e donas das
matas, então o Alho era uma coisa boa! Você imagina você estar vendo isso desde
sempre com você.
Manjericão,
Arruda, Alecrim, Macassar, Erva Cidreira, Capim Santo, Cansanção, um monte de
coisa que hoje tem em todo canto e as pessoas nem dão valor porque parece só
mato, de tanto costume de estar tomando remédio de farmácia. Dente de alho no
bolso pra não ser picado por cobra dentro do mato, tu imagina? Galho de Arruda
atrás da orelha pra entrar na feira e vender muita coisa, vender Inhame, vender
Abacate, vender a Macaxeira, galho de Arruda pra dar sorte. A folhinha nova da
Pitanga, da Goiabeira, da Araçá pra conter diarreia, então esse tipo de
conhecimento pra muitas pessoas caíram no esquecimento e muitos jovens não têm
nem noção de que isso era utilizado.
O
leite da folha da bananeira pra estancar um corte que você levou, imagina?
Imagina você mascar a folha do fumo e botar em cima de onde você furou com
espinho pra puxar o espinho, a folha do tomate e a pele do tomate pra botar em
cima da cabeça de prego, pra poder puxar a coisa toda de dentro do corpo. Isso
que eu tô dizendo que tá caindo no esquecimento, essa coisa da cultura, da
utilização das plantas medicinais. Eu nem falo das plantas que tem dentro do
mato hoje, que virou mato, que era alimento, tô falando das plantas de cura
mesmo. Tem uma série de plantas que deixaram de ser utilizadas por causa de um
comprimido, qualquer coisa toma um comprimido pra dor de cabeça, toma um
comprimido pra isso, vou pensar que eu tô com dor de cabeça já tomei um
comprimido, então quando podia tomar água, quando podia descascar uma Laranja e
cheirar a casca da laranja pra enjoo, imagina isso? Antes, descascava uma
Laranja completa, aquela casca que parecia um espiral e deixava pendurado na
cumeeira da casa, aí secava e aquilo ali queimava pra as crianças ficarem
cheirando quando tinham problema de Asma, então é esse tipo de medicina, minha
gente, que ficou no esquecimento; uma ou outra pessoa do interior que ainda
utiliza, a gente não tem muito costume disso e outras plantas de iluminar um
ambiente, de tirar as coisas ruins, como os Cactos, você vai no interior e toda
a casa tem um cacto na entrada, toda casa!
Já
testou folha de Bananeira pra secar bexiga de um corpo? Porque antes bexiga,
catapora, era uma coisa meio que comum, então o medicamento era você ficar
deitado em cima da folha da bananeira e puxavam a enfermidade pra folha de Bananeira.
A Fé, a sabedoria popular, ajudava a curar muitas enfermidades, então, banho
com Folha de colônia. Lambedor feito com Mastruz, feito com Hortelã da folha
grande, feito com uma série de folha que se juntava e que tinha dentro dos
quintais, que tinha no jardim de todo mundo, então juntava três, quatro coisas
associado a melaço da Cana de Açúcar, o açúcar preto, Folha de Colônia, Hortelã
da folha graúda, hortelã da folha miúda, hortelã macho, Mastruz, juntava tudo,
fazia um lambedor e ninguém tossia seco. Açafrão, você pegar Açafrão, pisar o
Açafrão e misturar o Açafrão com o Mel de abelha, fazer aquela papinha e tomar,
você passava o dia inteiro praticamente sem comer, não sentia fome porque o
organismo estava seguro. Sair de casa e mastigar um dente de Alho, então esse
tipo de coisa é o que eu tenho dito, tá deixando de ser repassado.
Então,
que gostaria de fazer essa primeira fala desses assuntos e dizer que a gente
ainda tem muita coisa dessa acontecendo de novo. O pessoal da Capoeira Angola
tem outra consciência e muitos estão divulgando, inclusive, essas atividades. È
interessante que a gente possa transmitir aos outros esse tipo de conhecimento
também, coisas que deixaram de lado na medicina popular e que teve sempre uma
eficácia nos tratamentos e que hoje pode ser colocado de volta, não apenas pra
fazer paliativos, mas pra tirar mesmo determinas enfermidades, desde o chá de
ser consumido ou dá essência de alguma dessas ervas para ser de uso externo,
pra uma massagem, uma compressa, ou apenas inalar o cheiro do vapor de
determinadas ervas, como na alimentação e também nos banhos, essa é a minha
primeira meditação a respeito da cultura das coisas das matas, dos Caboclos,
dos conhecimentos dos Caboclos, que os Índios deixaram e utilizam em muitas
partes do Brasil.
Manjericão
para purificação dos Rins, para um banho de corpo inteiro e para salada verde.
Alecrim
para acalmar um pouco.
“Um
bom galho de Arruda sempre ajuda a clarear”.
Não deu pra falar da Erva Babosa, do uso
da Erva Babosa, que usava quando era adolescente pra... Amassava a Erva Babosa
pra botar em cima de queimaduras, pra quando tirava os cravos e espinhas do
rosto, aí fazia a babinha e passava, pra não poder ficar aquela coisa preta
depois e minhas irmãs usavam Erva Babosa no cabelo. A mesma coisa do Côco; o
óleo de Côco hoje, tão famoso nas grandes empresas de cosméticos, aí era a
minha Avó que tirava o Olho de Côco pra passar no cabelo nas filhas.
*
Vemos
como este conhecimento estava tão presente na cultura brasileira e em casas
religiosas umbandistas, saberes esses que ainda são preservados na forma de
cura dos males que a medicina oficial não consegue atender, pois a medicina
oficial não possui uma eficácia entre as pessoas mais pobres, as ervas
atualmente até podem funcionar como um luxo para algumas classes que procuram
aprender uma sabedoria que era do povo mais simples e que hoje sofre por um
atendimento médico. Na Umbanda os espíritos ancestrais daqueles que já se
foram, bem como no Cadomblé, vem ensinar esses saberes para os vivos, mas
existem aqueles que ainda vivenciaram isso e podem nos contar essas históricas,
é o caso do Mestre Naldinho, basta que a gente pergunte.



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